Fórmula Química

Escovar Sapatos: Uma Técnica Delicada

Por: Marcus Schmidt em 28.10.2010

1278641002bff7c9de8e.jpgPraticamente todo tipo de sapato, durante as diferentes etapas de acabamento, passa por processos de "escovação" ou polimento. O numero de escovas utilizadas varia em numero e tipo. A escova tem a finalidade de alisar, polir, queimar, diminuir poros e dar brilho ao acabamento existente no couro, e aos produtos de acabamentos aplicados sobre o mesmo. A maioria dos acabamentos do curtume aceita a ação de escovas para aumentar a lisura, fechamento de poros, brilho e queima. Os produtos químicos de acabamento utilizados sobre os diferentes couros acabados nos curtumes são das mais variadas composições e apresentações, tais como cremes, bases, fundos, ceras abrasivas, ceras liquidas, avivantes, etc.

Alem dos produtos de acabamento propriamente ditos, existem ainda aqueles produtos utilizados para corrigir defeitos que o couro ou o acabamento apresentam, os quais também, muitas vezes, necessitam ser escovados. Para cada produto ou processo, existem escovas específicas, as quais devem ser usadas na rotação, pressão e sentido de escovação adequados, dependendo do efeito desejado (lisura, brilho, queima, etc.) caso contrário, além de não conseguirmos dar o visual adequado, podemos estar introduzindo no couro um defeito irreversível. As escovas utilizadas para o processo de acabamento são fabricadas em diversos materiais, de acordo com o trabalho que se quer realizar. O controle e o conhecimento da rotação das escovas é fundamental, pois rotações excessivas poderão destruir a flor do couro, torná-la muito duro ou remover os produtos de acabamento aplicados. Assim como rotações insuficientes poderão não produzir o efeito desejado.

Os materiais que compõem os diferentes tipos de escovas foram agrupados de acordo com a função a que se destinam:

  • Grupo 1: São as escovas fabricadas em feltro, as quais exercem forte ação abrasiva, além de gerarem muito calor pelo atrito. Estas escovas são utilizadas principalmente para obter acabamentos em fachetes de couro atanado.

  • Grupo 2: Neste grupo estão as escovas de lona, com a função de polir  couros firmes  acabamentos duros ou fortemente resinados. Com estas escovas, obtêm-se lisura, queima e polimento. A escova de lona ou "canvas" pode ser usada também com cera abrasiva para determinados acabamentos, como brush off e pigmentados. A escova fabricada em couro atanado, pouco conhecida em nosso meio, é usada para polir couro caseína.

  • Grupo 3: As escovas deste grupo destinam-se ao polimento final dos calçados e são fabricadas em algodão tipo popeline, seda, lã tecida, lã natural não cardada. As escovas de lã são muito pouco utilizadas em nosso meio. As escovas de seda têm sido utilizadas recentemente com bom resultado, apesar do alto custo.

 

As escovas de algodão são as mais comumente utilizadas e apresentam, normalmente, o problema de soltarem felpas, pois desfiam durante o uso. Este fenômeno se deve ao fato dos tecidos de algodão terem sido fabricados com algodão de fibra curta, o qual se desprende o fio básico. Como os acabamentos aplicados aos calçados muitas vezes são um pouco pegajosos, os filamentos de algodão solto ficam aderidos ao calçado, produzindo um mau aspecto e conseqüentemente rejeição pelo cliente. Na tentativa de resolver esse problema, os calçadistas aplicam silicone spray nas escovas, o que no primeiro momento diminui o problema, mas a curto prazo gera outro problema, o do brilho opaco ou embaçado que ocorre nas horas após, com o alastramento do silicone na superfície dos acabamentos.

  • Grupo 4: Estas escovas são confeccionadas em algodão cru e destinam-se a polimentos intermediários.

  • Grupo 5: A este grupo pertencem as escovas confeccionadas com crina de animal ou sintética, e sua principal função é de remover os excessos de creme aplicados para obtenção de lisura e eventual queima, se desejada.

  • Grupo 6: Estas escovas são confeccionadas em fibras sintéticas e impregnadas com partículas abrasivas como Carburundum, quartzo e outras. São utilizadas principalmente para fazer acabamentos em fachetes de couro atanado com objetivo de obter lisura.

12786416440cbb6ca.jpg

O uso adequado das diferentes escovas quanto à rotação é muito importante pois o trabalho das escovas gera atrito, que produz calor, além de alisar os produtos aplicados ou mesmo removê-los.

A rotação excessiva nas escovas utilizadas em couros atanados e semi-cromos, com alto teor de curtentes vegetais, produz um endurecimento e escurecimento irreversíveis do tanino, podendo o sapato apresentar, depois de desenformado, o famoso problema de "casca de laranja" ou flor solta.

A rotação insuficiente levará a não se obter o efeito desejado de brilho, lisura ou queima natural.

Segundo nossa experiência, as diferentes rotações a serem usadas poderiam ser agrupadas da seguinte maneira:

1278644308ac865084e37e.jpgA rotação das escovas deve ser medida e aferida pelo pessoal da manutenção com aparelho específico acoplado ao eixo da escova, pois somente assim teremos certeza da rotação usada.

Atualmente, já existem aparelhos específicos que, acoplados ao motor da escova, permitem regular instantaneamente a rotação, inclusive com leitura e aferição digitais.

Os diferentes tipos de escovas, em relação aos acabamentos dos couros em nível de curtume, e dos acabamentos colocados nos sapatos em nível de fábrica, produzem vários tipos de efeitos desejáveis se forem corretamente usados. Mas se forem utilizados.

PRINCIPAIS DEFEITOS

  1. Casca de laranja ou flor solta, flor crispada ou flor quebrada em couros atanados e semicromos.
    Estes defeitos na flor do couro podem ser originários da queima dos taninos em nível da flor por excesso de calor produzido por se escovar com alta rotação.
    O atrito das escovas é tanto maior quanto maior for sua rotação, utilizando-se uma mesma pressão sobre a escova.
    O atrito gera calor e este irá provocar uma oxidação ou queima dos taninos, os quais escurecem e se tornam excessivamente duros. Desta forma, o couro, quando é dobrado ou flexionado, mostra uma flor crispada e descolada da estrutura do couro (figura 1).
    Os couros atanados, ou seja, curtidos ao tanino são os mais reativos à fricção ou ao atrito das diferentes escovas.
    Os taninos são extratos vegetais com propriedades curtentes, compostos por ácidos tânicos, os quais, em presença do calor, se tornam escuros, duros, insolúveis e brilhantes.
    O efeito de escurecimento ou queima pode ser desejável para alguns calçados. Mas o grau de queima ou de escurecimento deve estar sob nosso controle para não introduzirmos um defeito irreversível.
    Os taninos contidos nos couros, ao serem escovados, fazem com que a superfície do couro se torne brilhante, lisa e escurecida (queima).
    Os taninos conferem aos couros propriedades plásticas e não elásticas, fazendo com que se possa moldar a flor como se trabalhássemos com massa de moldar. O que já não acontece com os couros curtidos ao cromo, os quais são extremamente macios, leves, resistentes e elásticos de uma maneira geral. Estes couros não aceitam ser escovados, pois todos os processos de escovação são inúteis devido a flor ser extremamente elástica e muito pouco plástica.

  2. Flor ardida:
    Este defeito na flor dos couros é evidenciado por superfícies ásperas e manchas escuras dispersas irregularmente. Estas manchas ficam mais escuras no momento de aplicar produtos de acabamento como cremes, ceras líquidas e determinadas bases.
    A aspereza e as manchas surgem exatamente nas regiões onde a flor do couro foi danificada, removida ou digerida durante os processos de conservação, curtimento ou acabamento.
    As escovas de cabelo ou crina animal, quando usadas com rotações muito elevadas, exercem uma ação abrasiva tão grande que a flor do couro fica lixada, abrindo-se, desta maneira, "buracos", os quais são ásperos, não aceitam brilho e tingem-se mais intensamente, produzindo manchas.

  3. Flor solta em napa:
    Rotações muito altas de escovas de crina animal ou tecido de algodão submetem a flor do couro a um movimento de cisalhamento muito intenso, levando as fibras que ligam a flor do couro ao restante, a rasgarem, produzindo a tão famosa flor solta (ilustração 2).


FUNÇÕES NO ACABAMENTO

  1. Remoção dos excessos de creme: Em couros com acabamento anilina e semi-anilina é normal aplicar cremes de diversas formulações, os quais têm a propriedade de uniformizar a cor das diferentes peças de couro, conferir brilho e toque nos acabamentos.

  2. Alisamento do couro: Os espaços entre os poros do couro são superfícies arredondadas, as quais não têm condições de produzir uma superfície lisa e com brilho. Os couros atanados e semicromos fortemente vegetalizados, devido à sua plasticidade, têm condições de serem alisados nas escovas de cabelo, devido ao efeito de "rebater" dos cabelos em movimento centrífugo. Este processo pode ser feito com o couro umedecido com água, bases, condicionadores ou a seco.
    Os cremes são aplicados com o auxílio de esponjas e esta aplicação fica desuniforme, motivo pelo qual os excessos devem ser removidos e a camada de produto residual deve ficar uniforme.
     
  3. Polimento: As ceras aplicadas nos calçados para que estes tenham brilho, devem ser escovadas com escovas de cabelo ou pano, para que as superfícies fiquem lisas e espelhadas.
    O polimento de produtos à base de ceras de carnaúba produz artigos com bastante brilho, o qual, com o passar do tempo, pode diminuir e até mesmo desaparecer. Para garantir um brilho permanente, como último processo, devemos usar escovas de panos macias (algodão fibra longa) nas quais tenha sido aplicada cera de polietileno que não perde o brilho por oxidação.
    As escovas de cabelo para o polimento de fundo são as mais indicadas, no entanto, na etapa final, as escovas de pano macias produzem as superfícies mais polidas, lisas e brilhantes.

  4. Polimento com ceras abrasivas: A utilização de ceras abrasivas para polir superfícies não lisas tem sido uma técnica usada em couro tipo Brush-off, couros pigmentados e gravados.
    As ceras abrasivas são barras constituídas de ceras nas quais existe disperso um material, normalmente mineral abrasivo, sob a forma de pó.
    O material abrasivo poderá ser de vários tipos e o suporte, ou ligante, é constituído de ceras macias. Deve-se tomar o cuidado de utilizar sempre ceras isentas de ácidos graxos, tais como ácido esteárico, ácido palmítico e miristico para evitar futuros problemas de eflorescência graxa.
    As escovas mais indicadas para a aplicação de ceras abrasivas são as fabricadas em lona de algodão sob a forma compacta.
    Após a utilização de ceras abrasivas, recomenda-se lavar o sapato com solventes adequados, usando pano de algodão macio, o qual deverá ser trocado freqüentemente.

 

CONCLUSÃO
A utilização das escovas de polimento adequadas a cada acabamento nas respectivas rotações e produtos de qualidade leva o calçadista a produzir calçados com bom visual e acabamento de longa durabilidade.

Comentarios

  • carlos em 11.10.2010 diz:

    como faço para dar cor e brilho em fachete na máquina de lustre e quais os produtos necessários para ter um brilho.

  • Sheila Denise Haag em 22.10.2010 diz:

    O que seria a cera de polietileno? Seria a mesma cera polix? Voçês teriam uma amostra?

  • Carlos Geyger em 04.11.2010 diz:

    O texto reflete a realidade com base em relevantes conhecimentos adquiridos com muitos anos de experiência, bem como baseado em tecnologia e evolução dos materiais. Cumprimentos ao Sr. Marcus Schmidt. Atenciosamente, Carlos Geyger

  • Dulcinea em 06.11.2010 diz:

    A cabeceira de couro branco já está ficando desbotada pelo tempo,gostaria de recuperá-la sem ter muito gasto.Pensei em aplicar alguma técnica de artesanato, é possivel ou o couro pode ser recuperado com algum produto? Obrigada

Deixe seu comentário



Fórmula Química
 - Rua Três de Maio, 20
São Jorge - Novo Hamburgo - RS - CEP 93534-430 - Telefone: 51 3066.4148